Terça-feira, 22 de Novembro de 2011

DIREITO A BRINCAR

"As mudanças sociais dos últimos 30 anos introduziram mudanças nas rotinas das crianças que não contêm agora espaço para o risco, a imprevisibilidade e a aventura no espaço físico natural. Urge repensar a construção de áreas residenciais, melhorar os espaços de recreio nas escolas e edifícios públicos. A rua deve voltar a ser um local de encontro, e não de passagem.
É através da brincadeira que as crianças se descobrem e se inventam, experimentam o Mundo e desenvolvem competências.
Mas esse tempo para brincar vai escasseando nas nossas sociedades: ora é a escola com cargas lectivas cada vez maiores, ora são os cursos de inglês ou de computadores, e mais a catequese ou os escuteiros. Até os furos ou feriados foram aniquilados com a criação das aulas de substituição, que são actividades completamente fora daquilo que é o projecto da própria disciplina. O momento em que faltava um professor era de actividade livre, de actividade física ou de partilha com os pares, no fundo qualquer coisa que fazia gostar mais da escola… Carlos Neto, professor da Faculdade de Motricidade Humana defende que «o aumento da carga horária e a total formalização escolar não é compatível com as necessidades de desenvolvimento de crianças e jovens, que necessitam de tempo informal para a promoção de um estilo de vida mais activo». O tempo livre não planeado e sem supervisão dos adultos é quase inexistente na vida da maioria das crianças.
E assim criamos jovens com maior probabilidade de serem hiperactivos, obesos ou com problemas de motricidade.
O analfabetismo motor
Carlos Neto fala de analfabetismo motor, considerando que as crianças se mexem cada vez menos e cada vez pior. As mudanças sociais dos últimos 30 anos introduziram mudanças nas rotinas das crianças que não contêm agora espaço para o risco, a imprevisibilidade e a aventura no espaço físico natural.
Todos os tempos são planeados e organizados, as crianças só têm de seguir o roteiro organizado
pelos adultos. Isto tem implicações graves a nível da autonomia e do desenvolvimento cognitivo (nomeadamente as competências motoras e perceptivas) e emocional. No fundo, a autonomia na mobilidade (isto é, ir para a escola sozinha, brincar fora de casa, ir à padaria, ir a uma associação) possibilita às crianças o desenvolvimento das representações cognitivas do espaço físico, o desenvolvimento da liberdade, a descoberta do mundo que as circunda, o sentido de descoberta e de resolver problemas, tudo essencial para o seu bem-estar físico e psicológico.
A obesidade pediátrica
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2005, 20 milhões de crianças menores de 5 anos estavam acima do peso. Em 2010, a contagem subiu para 40 milhões. Estas crianças com excesso de peso e obesidade provavelmente permanecerão obesas na idade adulta e desenvolverão problemas de saúde crónicos (por exemplo, diabetes, doenças cardiovasculares). A endocrinologista e investigadora Isabel do Carmo tem-se mostrado assustada com a obesidade nas crianças portuguesas. A investigadora considera que o excesso de açúcares simples, o excesso de gorduras e o petiscar contínuo são os erros alimentares que mais contribuem para a obesidade na idade pediátrica. Por outro lado, Isabel do Carmo defende que não há prevenção ou tratamento para a obesidade sem prescrição de exercício físico; e que a necessidade de prevenção exige que o Estado dinamize uma campanha com impacto nos diferentes contextos de vida das crianças.
Onde brincar?
O espaço de brincadeira deve ser livre e amplo para potenciar o desenvolvimento físico, cognitivo e sócio-emocional das crianças. Mas são raros os espaços em que as crianças podem estar livres, sem a supervisão dos adultos. Há 30 anos atrás, brincar na rua era uma experiência comum à esmagadora maioria das crianças. No entanto, hoje é algo desconhecido para elas. As cidades têm mais carros e menos espaços livres. E os pais têm muitos medos, medo que sejam atropelados, medo que se magoem, medo que sejam raptados…
Assim, as crianças crescem entre quatro paredes, aprendendo e crescendo com as novas tecnologias. Brincar ou não na rua parece depender da classe social de pertença, bem como do meio envolvente, sendo a cultura de rua forte nos bairros mais populares, contrastando com as zonas residenciais da classe média.
Temos de mudar os pais, a escola, e também as cidades.
Carlos Neto afirma que a vida das crianças na cidade é desesperadamente adulta e racional. As poucas zonas livres que existem são iguais em todo o lado, sem interesse nenhum para as crianças, resultado de negócios  mediados pela desastrosa ASAE! Urge assim o desenvolvimento de políticas que facilitem a criação de verdadeiros espaços de liberdade e de criação para as nossas crianças. Estas políticas deverão repensar a construção de áreas residenciais, melhorar os espaços de recreio nas escolas e edifícios públicos. A rua deve voltar a ser um local de encontro, e não de passagem. Como dizia Miguel Torga: «Brinca enquanto souberes! Tudo o que é bom e belo se desaprende... A vida compra e vende a perdição. Alheado e feliz, brinca no mundo da imaginação, que nenhum outro mundo contradiz! Brinca  instintivamente como um bicho! Fura os olhos do tempo, e à volta do seu pasmo alvar, de cabra-cega tonta, a saltar e a correr desafronta o adulto que hás-de ser!» "

Por Dra Filipa Lopes, mãe do Afonso da sala 4 in : Revista Rubra nº 11 de 2011

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